Um ano após morte de família carbonizada no ABC, acusados esperam julgamento

Filha das vítimas, namorada dela e outros três estão presos por serem suspeitos do crime; mulheres negam participação nos homicídios; trio permanece em silêncio

São Paulo

Um ano depois da morte de uma família, encontrada carbonizada dentro de um carro em São Bernardo do Campo (ABC), na noite de 27 de janeiro do ano passado, a Justiça ainda analisa se irão para júri popular os cinco acusados do crime.

Prestaram seus últimos depoimentos ao TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), no início deste mês, Anaflávia Martins Gonçalves, filha e irmã das vítimas, e sua namorada, Carina Ramos de Abreu. Já os irmãos Juliano Oliveira Ramos Júnior e Jonathan Fagundes Ramos, primos de Carina, permaneceram na ocasião em silêncio, da mesma forma que Guilherme Ramos da Silva. Todos estão presos.

Os cinco são acusados pelo MP (Ministério Público) de matar e carbonizar os corpos de Romuyuki Gonçalves, 43 anos, a mulher Flaviana Gonçalves, 40, e o filho Juan Gonçalves, 15. Os corpos das vítimas foram encontrados no carro da família, um Jeep Compass, no limite entre São Bernardo e Santo André, também no ABC, na madrugada de 28 de janeiro do ano passado. Anaflávia e Carina foram presas no dia seguinte, e os outros suspeitos dias depois.

O advogado Epaminondas Gomes de Farias, assistente de acusação contratado pela família das vítimas, afirmou acreditar que os cinco acusados arquitetaram e executaram o triplo assassinato. “Queremos que todos sejam pronunciados pela Justiça. Há indícios fortes para serem julgados em júri popular", afirmou.

Ele acrescentou existir, além do julgamento popular, outras três possibilidades a serem seguidas pelo juiz que analisa o caso.

A primeira seria absolver os acusados, algo não cogitado pela acusação; a segunda seria a desclassificação do caso, ou seja, não iria para Júri Popular, “a aposta da defesa”, segundo Farias; a terceira possibilidade, também descartada pela acusação, seria a Justiça anular o caso por falta de provas.

Carina Ramos (esq.) e Anaflávia Gonçalves são acusadas de participação da morte da família da primeira, em 28 de janeiro de 2020, no ABC - Reprodução/Redes Sociais

O assistente de acusação disse ainda que, em um eventual júri popular, dará apoio ao MP para que os cinco acusados sejam condenados com a pena máxima.

O advogado de defesa de Anaflávia e Carina, Sebastião Siqueira, afirmou que suas clientes mantêm a versão de que participaram do planejamento de um assalto, que precedeu o triplo assassinato, mas foram pegas de surpresa com a violência. A motivação para o crime seria o fato de o bando não ter encontrado dinheiro na casa das vítimas, segundo investigação da Polícia Civil.

“Elas não mudaram uma vírgula [em seus depoimentos] desde que foram presas e levadas à delegacia. Já os outros acusados não responderam a nenhuma pergunta feita pelo juiz [no início deste mês]”, afirmou o defensor. Porém à polícia, Juliano Oliveira Ramos Júnior, um dos acusados pelo crime, afirmou após ser preso, no ano passado, que o triplo assassinato ocorreu após o aval das duas mulheres.

A advogada Alessandra Martins Gonçalves Jirardi, que defende Juliano e Jonathan, afirmou que, por orientação dela, seus clientes permaneceram em silêncio durante a audiência do fim do ano passado. Segundo a defensora, eles vão se manifestar em uma eventual plenária do júri. “Sabemos que eles serão submetidos ao júri popular. Então, vamos apresentar nossa versão em frente ao conselho de sentença [jurados].”

Ela adiantou que irá apresentar testemunhos e provas indicando que Anaflávia e Carina decidiram sobre a morte da família, versão diferente das duas acusadas. Os dois clientes dela, acrescentou, não participaram do triplo assassinato, mas "somente do roubo."

A defensora ainda disse que o julgamento será “uma batalha” entre advogados de defesa, durante a qual cada um irá sustentar a versão de seus clientes. “Nós iremos apontar o dedo para elas e elas para a gente”, afirmou.

Diferentemente de Alessandra, o advogado das duas acusadas afirmou que Anaflávia e Carina acreditavam que ocorreria um roubo simulado, junto com os outros três acusados. “Mas por fim, como não encontraram dinheiro na casa, os outros três 'deram cabo da família'. Minhas clientes foram envolvidas nisso e não queriam que acabasse como acabou”, afirmou.

Ana Flávia Menezes Gonçalves e Carina Ramos (foto), acusadas de participação na morte da família encontrada carbonizada em São Bernardo do Campo (ABC), em 28 de janeiro do ano passado, saem da carceragem do 7º DP de São Bernardo para prestar depoimento - Reprodução/TV Globo

Sobre o julgamento, ele afirmou acreditar "particularmente" que ocorrerá um júri popular, mas não concorda com isso. “A intenção de minhas clientes não era matar [a família]”, afirmou.

Ele acrescentou que, apesar das mortes, suas clientes deveriam ser julgadas somente pelo planejamento do roubo. “Mas se for decidido o tribunal popular [pelo TJ-SP], não irei recorrer. Vou provar que elas estão falando a verdade desde o início [em um eventual julgamento].”

A defesa de Guilherme Ramos da Silva não foi localizada até a publicação desta reportagem.

O TJ-SP afirmou nesta quarta-feira (27) que o processo "ainda aguarda o encerramento da fase de instrução."

Uma testemunha protegida, acrescentou a Justiça, foi ouvida em Ferraz de Vasconcelos (Grande SP), mas não foi qualificada nos autos. "Por isso foi solicitada a informação ao Fórum ", diz trecho de nota. A data do depoimento não foi informada.

Família está com luto em suspenso, afirma acusação

O advogado Epaminondas Gomes de Farias, assistente de acusação contratado pela família das vítimas, afirmou que os parentes estão com o “luto em aberto” pois poderão vivenciar a dor pela perda dos entes queridos, somente após a Justiça “dar a devida resposta” aos acusados pelo crime.

Ele acrescentou que os parentes já iniciaram o processo de inventário dos bens das vítimas, já para evitar que Anaflávia tenha direito a herança. “A família já está conversando sobre isso e e processo já foi aberto.”

Anaflávia e Carina estão detidas em uma das duas penitenciárias femininas de Tremembé (147 km de SP), segundo o advogado de defesa delas, Sebastião Siqueira.

Ele acrescentou que ambas ficam juntas e se mantêm apreensivas desde que foram detidas. “A Anaflávia, quando alguém fala dos familiares dela, chora bastante. Ela não queria que acontecesse a morte [da família dela]”, afirmou.

Caso a Justiça demore para definir a data e tipo do julgamento das duas acusadas, acrescentou o defensor, ele pretende entrar com um pedido de habeas corpus, para que suas clientes respondam ao caso em liberdade.

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