Empresas de ônibus de São Paulo não fizeram 2 milhões de viagens, diz tribunal

Prejuízo para Prefeitura de SP chega a R$ 145 milhões, segundo auditoria

Marcelo Mora
São Paulo

Ao menos dois milhões de viagens deixaram de ser feitas apenas em dias úteis, de janeiro a setembro de 2018, por empresas de ônibus que operam no transporte público na capital. 

Idosa embarca em ponto na praça João Mendes (centro); viagens que deixaram de ser feitas pelas empresas de ônibus que operam na capital, segundo relatório do Tribunal de Contas do Município, correspondem a dez dias de operação do sistema em toda cidade - Rubens Cavallari/Folhapress

O problema é citado em relatório do TCM (Tribunal de Contas do Município) após auditoria em 2018. 
Nas contas do órgão fiscalizador, isso corresponde a 38,6 milhões de km que deixaram de ser operados pelas empresas, somente em dias úteis no período.

Segundo a SPTrans, que gerencia o transporte por ônibus na capital, são feitas 200 mil viagens diárias na cidade. Ou seja, o número apontado pelo TCM equivale a dez dias de todos os embarques em São paulo. 

O prejuízo aos cofres da Prefeitura, gestão Bruno Covas (PSDB), que subsidia parte das passagens, chega a R$ 145 milhões.

Segundo o TCM, a média do ICV (Índice de Cumprimento de Viagens) por parte das empresas foi de 93%, contra 91% de 2017. 

O órgão destaca que muitas empresas apresentam ICVs “muito abaixo da média” (veja arte ao lado). O descumprimento tem reflexo na insatisfação e queixas dos usuários. 

Entre as principais queixas estão “intervalo excessivo da linha”, “descumprimento de partida no ponto inicial/final” e “demora na partida do ônibus”.

Os baixos índices de pontualidade nas partidas foram apontados como outro problema. Em 2018, o índice médio foi de 62%, contra 59% em 2017. 

Além disso, a idade média da frota vem aumentando ano a ano, impactando nas condições de segurança, conforto e mobilidade aos condutores e usuários, tendo atingido, em dezembro do ano passado, 
6 anos e 1 mês. 

Os contratos de concessão encerrados em julho de 2018 determinavam idade média máxima de cinco anos para a frota. Já nos atuais contratos emergenciais não há determinação de idade média máxima. 
Outro item apontado pela auditoria é a falta de manutenção dos ônibus.

Com base nos problemas encontrados, o TCM diz que a prefeitura “não cumpre adequadamente a fiscalização” do sistema de transporte coletivo, “expondo-o a riscos de transtornos operacionais decorrentes da má qualidade dos serviços prestados aos munícipes”.

Queixas

O tempo de espera nos pontos de ônibus, seja no final ou no trajeto, foi a principal reclamação de passageiros ouvidos pela reportagem de algumas das linhas que em 2018 eram operadas pela Tupi.

A empresa apresentou um dos piores ICV (Índices de Cumprimento de Viagens, de 79,0%, abaixo da média do sistema, de 93%, segundo o TCM. Em janeiro, as linhas da Tupi, que ligam o Centro ao extremo da zona Sul, passaram a ser operadas pela Mobi.

Os usuários destas linhas relataram esperas de “até 40 minutos” nos pontos de ônibus fora dos horários de pico. 

“Perco muito tempo esperando. É de regular para ruim, um retrato como um todo do transporte público”, afirmou o aposentado José Honorato, 58 anos.

“Tenho de chegar no ponto às 5h da tarde. Se perder o das 5h10, o outro ônibus só vai passar às 5h40. De vez em quando me atraso para chegar na faculdade”, reclama o auxiliar de administração Gabriel Freitas, 22. 

Para a secretária Aline Vieira, 23, que mora em Itaquaquecetuba (Grande SP), trabalha na região da avenida Faria Lima (zona oeste) e que por três dias da semana vai para a casa do namorado, em Cidade Dutra (zona leste), o sacrifício é ainda maior.  

“Só de espera deste ônibus são 30 minutos. Às vezes, levo 4 horas, se juntar ônibus, trem, metrô e ônibus de novo.” 

Resposta

Questionada, a SPTrans, da gestão Bruno Covas (PSDB), afirma, em nota, “que a atual gestão alterou e ampliou a forma de fiscalização por descumprimento de partidas” e que “desde março de 2018” passou a ser feita também por meio eletrônico e “desde 1º de julho é feita sete dias por semana”.

Sobre a quantidade de viagens não cumpridas pelas empresas, afirma que já havia feito anteriormente um esclarecimento ao Tribunal de Contas do Município, que, segundo a prefeitura, “compara de forma equivocada o ICV (Índice de Cumprimento de Viagens) com dados de fiscalização”.

Procurados pela reportagem, o SPUrbanuss, o sindicato das empresas, e as companhias associadas, que formam o consórcio que opera as cerca de 1.300 linhas, diz que “só irão se manifestar quando tiverem ciência e analisarem a íntegra do relatório do Tribunal de Contas do Município”.

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