Estrangeiros lutam para seguir no Brasil em meio à pandemia

Queda na renda e falta de perspectiva estão entre os problemas de quem veio por uma nova vida

São Paulo

Deixar o próprio país em busca de novas oportunidades e, ao reiniciar a vida, topar com uma pandemia que já levou embora meio milhão de brasileiros. Esse é o roteiro criado pela realidade para milhares de pessoas que vivem no Brasil atualmente como imigrantes e refugiados.

Queda drástica na renda, risco de contaminação pelo coronavírus e, principalmente, a batalha para se reencontrar com a esperança em dias melhores no cenário escolhido para escrever a sua própria história fazem parte do dia a dia.

Segundo dados da Acnur (Agência da ONU para Refugiados), cerca de 82,4 milhões de pessoas em todo o mundo se viram obrigadas a se mudar por causa de perseguição, conflito, violência, violação de direitos humanos, entre outros eventos até o fim de 2020. Entre essas pessoas, 26,4 milhões são consideradas refugiadas em outros países. Só no Brasil, segundo dados de 2019 do Ministério da Justiça, havia 32 mil nessa situação.

Com a Covid-19, a vida de pessoas como o senegalês Ndiaga Sow, 45 anos, mudou completamente. “Muito, muito, muito. Metade do que eu ganhava. E muitas contas para pagar, muita fatura. Está bem complicado”, diz ele, que está há oito anos no país. Entre as despesas, os R$ 1.500 de aluguel que divide com um dos irmãos.

O senegalês Ndiaga Sow, 45, em sua barraca com produtos da arte africana na feira do imigrante, ao lado da estação Santa Cruz da linha 5-lilás - Eduardo Anizelli/Folhapress

Sow vende arte africana. Desde roupas típicas até máscaras e trabalhos em madeira, vindos diretamente do Senegal. Dali tem saído o suficiente. “Graças a Deus, estamos comendo, dormindo em casa, sem fazer besteira na rua, com saúde”, fala o senegalês.

A pandemia do coronavírus ainda não apagou o brilho de quem consegue sorrir com os olhos, mesmo atrás da máscara. “Com a vacinação, vai melhorar para todo mundo. As pessoas vão voltar a trabalhar”, é o que espera o senegalês, que pretende permanecer no Brasil, apesar de tudo.

Estudo

Já o boliviano Nechel Herrera, 26, ainda se imagina voltando ao seu próprio país um dia. “Vim em busca de oportunidades e para poder estudar aqui”, afirma. “Queria fazer um curso de técnico de enfermagem”, diz.

Por enquanto, Herrera trabalha um dia de cada vez em restaurante, como ajudante, o que não é o suficiente para ter a renda que já teve no passado, mas o ajuda a manter a casa com o filho de 9 meses, o companheiro de 23 anos e a sogra.

Em meio à luta diária, a boa notícia nesta última semana ficou por conta da vacina que recebeu, por ser soropositivo.

Estilista fugiu da guerra e teve Covid-19 no Brasil

Bombardeios que derrubaram a sua fábrica de roupas, ameaça de ter as filhas levadas pelo Estado Islâmico e a total impossibilidade de viver em paz na terra onde nasceu trouxeram Lutfieh Al Tinawi, 53 anos, e a família para o Brasil há oito anos, vinda da Síria. Em meio à tentativa de se reerguer no país estrangeiro, a estilista encontrou pela frente o coronavírus como mais uma barreira no caminho para a estabilidade.

Com a ajuda de Anas Obaid, ela conversou nesta semana, em árabe, com a reportagem. Ela e mais cinco pessoas da família foram contaminados pelo coronavírus no ano passado.Desde então, a matriarca tem sentido os efeitos do pós-Covid, que atingem em cheio todo o seu corpo. “Tudo cansa. Não consigo trabalhar como gostaria”, afirmou. Restou vender comida árabe na feira de refugiados.

A imigrante Síria Lutfieh Al tinawi, 53, em uma feira de imigrantes do lado da estação Santa Cruz do metrô, em São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress

Durante 11 dias, Lutfieh permaneceu internada, tentando se recuperar, e presenciou cenas não muito diferentes daquelas vistas em um país em guerra. “Via corpos sendo carregados e imaginava que poderia ser a próxima.

Quando questionada se temeu pela própria vida e saúde, Lutfieh respondeu com lágrimas escorrendo entre o hijab (lenço que cobre a cabeça) e a máscara. O compatriota que traduziu a sua fala se afastou, também emocionado. “Não tinha medo de morrer, porque já não estava mais feliz”, contou.

No Brasil, a estilista vive em um apartamento de dois quartos, com marido, três filhos, genro e a neta. Um dos filhos ainda sofre as sequelas de quando foi soldado pelo seu país e acabou nas mãos do Estado Islâmico, por três meses.

Apesar de tudo, a estilista síria ainda sustenta seus sonhos, com desejo de dias melhores. “Quero ver os filhos de Alá continuando a vida sem dor, sem sofrimento diante dos meus olhos. E recuperar a minha saúde”, diz.

‘Não há vacina para a situação do refugiado’, afirma jornalista sírio

O jornalista sírio Anas Obaid, 33, viu um professor ser morto na sua frente, quando ficou refém do Estado Islâmico. Também sofreu com as restrições impostas em um campo de refugiados no Líbano, onde permaneceu por três anos. Ele faz paralelos com a pandemia e uma ressalva.

“Vivemos assim há dez anos. Sempre tem alguém morrendo, perdendo trabalho, não podendo entrar em um país ou outro. Sempre isolado”, diz. “[Mas] Não há vacina para a nossa situação, como refugiados.”

O imigrante Sírio Anas Obaid, 33, em uma feira de imigrantes do lado da estação Santa Cruz do metrô, em São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress

Há cinco anos no Brasil, Obaid deseja se tornar cineasta. Já participou de série, peça de teatro, novela, dá palestras e escreve um livro, atividades que o aproximam de seu sonho. No país, ele também cuida de feira itinerante de refugiados, onde vende perfumes personalizados, uma forma de sobreviver em meio à pandemia e compartilhar cultura. Nesta semana, com o apoio do Instituto Adus e da ViaMobilidade, as bancas estavam montadas ao lado da estação Santa Cruz, na linha 5-lilás.

Em dez anos, a guerra deixou cerca de 400 mil mortos na Síria —o país do Oriente Médio tem cerca de 18 milhões de habitantes.

Boliviano vem a São Paulo pela saúde da família

Tem quem se veja obrigado a deixar vida profissional, parte da família e todo um passado para trás não por si mesmo, mas por aqueles que ama. É o caso do contador boliviano Waldo Candia Vasquez, 59 anos, que está há cinco meses no Brasil para cuidar da saúde do neto.

A filha de Vasquez teve gêmeos e uma das crianças nasceu com má-formação. O avô largou tudo e, em plena pandemia, desembarcou em São Paulo. “Viemos para operá-lo”, conta. “Devemos retornar em outubro ou novembro de 2022”, diz.

Para viver no Brasil, trabalha em um restaurante na rua Coimbra. “Não menosprezo o trabalho e consigo me sustentar minimamente”, explica. “Faço tudo isso por amor ao meu neto.”

Centro do Imigrante atende 40 mil pessoas em um ano

O Centro do Imigrante atua para atenuar as dores da pandemia entre os estrangeiros que buscam ajuda e, desde março de 2020, atendeu 40 mil pessoas. Com as restrições, levou os serviços para a internet.
Documentação, idioma, capacitação e empregabilidade são os principais problemas, segundo Guilherme Guz, gerente de responsabilidade social do Instituto Omni, que administra o centro.

Guz diz que 80% do público está no mercado informal e tem dificuldade, por exemplo, com crédito.
Na pandemia, também ficam à parte na luta por doações, por viverem em cortiços, não em comunidades, de mais visibilidade. “Não são atingidos pela onda de solidariedade”, diz.

Padre aponta sensação de retrocesso e angústia

O padre Paolo Parise, da Missão Paz, afirma que imigrantes e refugiados enfrentam problemas comuns aos brasileiros, como o desafio econômico pela perda de renda. Mas aponta também outras questões.
“Um desafio psicológico. Muitos têm uma sensação de retrocesso, de angústia. Aquelas conquistas, no conjunto da pandemia, desabaram. Alguns tiveram que morar em casas de acolhida, quando já tinham casas.”

Aumento na dificuldade para a regularização da situação legal também são alguns dos entraves, segundo o padre. “A pessoa não consegue desenvolver atividade formal, com carteira assinada. É tudo bico. Não pode abrir conta, são várias as consequências.”

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